//A imprensa, o golpe e a comemoração de Cantanhêde

A imprensa, o golpe e a comemoração de Cantanhêde

O dia 17 de abril de 2016 entrará para a história. O processo de impeachment da presidente Dilma marca a virada de uma página democrática de 31 anos. Não foi somente golpe, foi uma eleição indireta explícita, com o aval do Supremo Tribunal Federal e apoio maciço dos canais de comunicação. Um espetáculo circense com apenas um palhaço profissional. Porém, os que sempre lutaram pela cultura de circo no país, dessa vez não podem reclamar da falta de divulgação.

A imprensa de oposição finalmente poderá comemorar uma eleição presidencial. Durante toda a semana sites, jornais e revistas tratavam basicamente de dois assuntos. “Governo negocia cargos por votos” e “Temer Golpista busca compor base para o governo”. Não bastasse o tratamento diferenciado nos leads, os conteúdos das matérias não possuíam o mínimo de estranheza pelas negociatas para derrubar a presidente, feitas no Palácio do Jaburu.

O vice-presidente Temer Golpista fez discurso de posse em áudio e mandou para a imprensa, num espetáculo dantesco tentou até insinuar que o áudio de mais de 10 minutos havia vazado, assim como a sua carta à presidente. O áudio, prova contundente do golpe em curso, executado pelo vice-presidente da República que também assinou as ditas “pedaladas fiscais”, foi amplamente divulgado pelos meios de comunicação, na íntegra. Logo depois, Golpista foi além e comunicou (ou “deixou vazar”) ao mercado financeiro o nome de Armínio Fraga para o seu Ministério da Fazenda.

A Globo, detentora dos direitos dos campeonatos estaduais de futebol, mudou as partidas de domingo para o sábado, afinal o espetáculo dominical seria outro. Isso ficou ainda mais nítido quando o jogo da Copa do Nordeste entre Bahia x Santa Cruz mantiveram a sua data, pois a transmissão seria do Esporte Interativo. A Globo apostou alto no IBOPE de Brasília, trocando os seus consagrados 17 pontos de média, nos estaduais.

No dia da votação a jornalista Eliane Cantanhêde, da Globo News, afirmou que os deputados de oposição diziam ter ampla maioria, mas “ainda não dá para comemorar”. Justo ela, que riu da informação da “Massa Cheirosa do PSDB”, entregou o posicionamento da empresa, de forma explícita. A comemoração iria esperar mais um pouco.

Começam as votações. No plenário da Câmara um telão exibia imagem das reações dos manifestantes na rua. Uma faixa “FORA CUNHA” foi aberta atrás do presidente do Congresso logo no começo, mas foi retirada. Na BAND, um corte na imagem mostrava a votação de um lado e do outro a manifestação fora do congresso com pessoas exibindo patos amarelos nas mãos.

Ao microfone, deputados se alternavam para “em nome de Deus” e “pela minha família” votarem o SIM ao impeachment, numa referência quase inocente à “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, ato que consolidou o Golpe de 64, ou como preferem os golpistas, Gloriosa Revolução Militar de 64.

Com o avanço dos trabalhos, os governistas miravam enraivecidos para Cunha Golpista enquanto os pró-impeachment faziam uma festa enquanto procuravam as câmeras. Na justificativa dos votos, ninguém falava sobre as “pedaladas fiscais”, eram votos “pelo meu filho que morreu”, “pelos meus pais”, “pela família”, “pelos movimentos sociais MBL  e Revoltados Online”, “pelo torturador de mulheres Carlos Alberto Ustra”, “pela paz em Jerusalém”. Um deputado chegou a voltar para dizer “Sr. Presidente eu esqueci de falar. Pelo meu filho fulano de tal”. A votação seguia e a Bahia aparecia como último foco de resistência ao impeachment, mas ironicamente um voto de Pernambuco, terra de Lula, deu o veredito final.

Enfim, Cantanhêde, pode comemorar. Após a eleição, revolta e comemoração nas redes sociais e festa nas redações. O Brasil acordou na segunda-feira, não sem Dilma, como propagavam os pró-impeachment, mas com a vergonhosa notícia que os deputados já falam abertamente sobre a Anistia de Cunha por ele ter aprovado o impeachment. Nos TrendTopics do Twitter “Valeu Cunha” em primeiro lugar.

Agora o impedimento da presidente vai ao Senado. Vamos esperar pra ver se os Senadores aceitam o pedido ou arquivam. E se aceitarem, como será essa votação.

By |2016-11-22T01:59:16+00:00março 23rd, 2016|Política|

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Publicitário, MBA em Gestão Esportiva, webdesigner, designer 3d, diagramador, cronista, baiano "workaholic" e pai de Thor Cerqueira. Colunista da Revista Sabiá (Portugal), possui textos publicados em sites como Observatório da Imprensa, Cidade Marketing, Feminino e Além, Página de Polícia, dentre outros.