Vivemos um momento triste. Um momento depressão social histórica, que vai muito além da política e economia. Conquistamos demais, nas últimas décadas, evoluímos demais e agora parece que estamos no momento de descida.

As pessoas compartilham o ódio e o aplaudem. Passam adiante mentiras e quando descobrem que são falsas as informações, simplesmente se calam. Algumas tem prazer em divulgar um caos social, que ainda não existe fisicamente, e outras acreditam. Minha prima que viveu a vida toda pegando ônibus, informou que a filha dela só anda de carro, por causa dos frequentes tiroteios nos coletivos. Na greve da polícia as pessoas ficaram ávidas em compartilhar imagens de crimes e arrastões, sem ao menos procurar se informar sobre a veracidade das informações. A vida ficou rápida demais para esperar as verdades.

Na política a coisa ficou ainda pior. Ao invés de tratar de assuntos com seriedade e se aprofundar no tema, as pessoas preferem mandar a presidente tomar no cu, como se isso fosse resolver o problema da economia. A mentira, sempre amiga dos políticos, hoje é divulgada sem o menor sentimento de culpa, por eleitores de ambos os times. O time vencedor e o perdedor das eleições. Pra que veracidade?

Nas eleições presidenciais um outro ódio apareceu nas telas. A xenofobia contra os Nordestinos. O ódio era tanto, e guardado a tanto tempo, que transbordou. Culpa dos nordestinos que fazem filhos pra ganhar o Bolsa Família, cabeça de eleitor paulista é diferente do eleitor nordestino (graças a Deus, Maluf amado em SP). Nordestinos sendo retratados por um asno com chapéu de couro, sobre chão árido e a bandeira do partido que ganhou as eleições, entre tantas outras coisas.

No campo social as coisas pioraram. Como disse Caetano alguns ainda veem tanto espírito no feto e nenhum no marginal. Pautas como pena de morte e redução da maioridade penal viraram temas de debates acalorados em redes sociais. Seria ótimo se fossem embasados em números, estatísticas, propostas de soluções, mas se resumem a repassar discursos de ódio, como “bandido bom é bandido morto”. Ou seja, vamos matar 700.000 pessoas presas e os outros ainda soltos e resolveremos o problema da criminalidade. Em nome dos homens de bem, cometer um genocídio é necessário para que as ruas vivam em paz. “Homens de bem” querendo legitimar a morte dos “caras maus”.

cicero_intoleranciaA intolerância salta para todas as esferas. As conquistas históricas de liberdade religiosa, vem perdendo força e espaço. As religiões andam tão confusas, que um Papa desponta como o melhor exemplo de tolerância. Evangélicos, cristãos, citam mais o Antigo Testamento que o Novo. Esquecem o básico: a Boa Nova, o Evangelho, é Cristo e não Moisés. Adoram o Deus sanguinário do Antigo e transformam os ensinamentos de escravos, nômades e ignorantes, de mais de 2000 atrás, em verdades absolutas e A Vontade de Deus. Assim, justificam seu ódio contra os hereges e as pessoas que não vivem conforme seus preceitos. Como os gays, por exemplo.

Os gays viraram as bruxas dessa Nova Inquisição. O ódio contra quem pensa diferente, e prefere o igual pra se relacionar, é algo cada vez maior. Dizem: “Deus criou Adão e Eva e não Adão e Ivo” mas esquecem que Deus não criou seu par para transar e reproduzir no Éden. O ódio contra os gays vem da ascensão dos direitos conquistados por eles. Assim como o ódio racial.

Os negros apareceram. Saíram das senzalas das favelas e desceram pro asfalto. Viraram notícia. A camisa “100% negro” já não é mais necessária. Os negros já se orgulham de serem negros. Mas os brancos, não. Vejo pessoas contrárias as cotas raciais em universidades, mas nas fotos de sua turma de engenharia, direito e medicina, negros são uma ínfima minoria. O vídeo de Emicida chocou a sociedade, simplesmente por mostrar a realidade sem maquiagens. O racismo enraizou-se no discurso que “não existe racismo no Brasil”. E institucionalizou-se.

Resumindo, todos os direitos conquistados, estão sendo questionados nos dias de hoje. A sociedade quer combater violência com violência, liberdade religiosa com fundamentalismo e a corrupção dos políticos com mentiras. A verdade virou um mero detalhe, chato demais para se pesquisar. Afinal, se perdermos tempo buscando a verdade alguém irá compartilhar aquele vídeo “que parece inteligente” antes de mim nas redes. E em busca desse “furo de reportagem” no facebook, se aquilo não for verdade, será. Ao menos na cabeça dos que pensam como eu. E viva Goebbles.