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Música boba e bom humor

Publicado por: Erick Cerqueira    Tags:  caetano veloso, gilberto gil, joão gilberto, jovem guarda, mpb, música, música boba, música brega, roberto carlos, tom jobim, tonga da mironga, trocalismo, tropicália, vinícius de moraes    Publicado em:  março 23, 2011  |  Seja o primeiro a comentar



Acordo e olho para TV que passa a propaganda da VISA. Que coisa triste é aquela musiquinha, e ao mesmo tempo, genial. Não tem como a gente não rir ou sair com ela na cabeça… Pensei em quantas músicas bobinhas e engraçadas fizeram a cabeça do povo brasileiro nos últimos anos e resolvi elencar algumas aqui para relembrarmos. É importante ressaltar que “música boba que faz sucesso” não é um produto exclusivo do Brasil. Ob-la-di, ob-la-da dos Beatles é prova disso, mas preferi fincar os pés em solo brasileiro.

Acredito que as músicas bobas fizeram sucesso ao longo do tempo por serem uma espécie de gênero do humor na área musical. A intenção delas, penso, não eram ser um poesia cantada e sim uma forma bem humorada de levar a descontração para os ouvintes. Nietzsche dizia que “temos a arte para não morrer da verdade” e acho que ele, mesmo sem conhecer a música brasileira, se referia a esses “momentos de inspiração” dos nossos artistas.

Jovem Guarda – o Axé Music dos anos 60 (segundo meu amigo Potiguar)

Vamos começar por um dos movimentos que mais revelou música besta na história. A grande Jovem Guarda. O movimento, encabeçado por Roberto Carlos, era basicamente uma mistura de versões de músicas americanas/ inglesas/ italianas e algumas canções muito bobas. Entre as versões destaque para Estúpido Cupido, Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones, O Calhambeque, Banho de Lua, entre outras. Mas as músicas bobinhas também tinham seu lugar… A Festa do Bolinha, Ele é o bom, Lacinhos Cor De Rosa e o clássico Festa de Arromba. Se essas músicas fossem lançadas atualmente, seriam consideradas “de péssima qualidade”, mas naqueles tempos, viraram clássicos e o Rei está ai até hoje…

A Bossa Nova e o Pato

Pouco antes da Jovem Guarda surgia a Bossa Nova, com os gênios João Gilberto, Vinicius de Moraes e Tom Jobim à frente. Nesse movimento musical o forte era a música brasileira, mas precisamente as reinvenções do samba. Nada de versões internacionais. O bom era cantar sambas, antigos e novos, e de um modo mais peculiar, mais lento que o normal. Os clássicos surgiam aos montes, e são cantados até hoje. Chega de Saudade, Samba do Avião, Desafinado, Berimbau, Samba de uma nota Só, Garota de Ipanema… Porém os líderes da Bossa Nova também gravaram algumas músicas bobas. Na dianteira surge O Pato (quén, quém), de João Gilberto. O poetinha Vinicius de Moraes xingava em nagô e ninguém dizia nada. A Tonga da Mironga do Kabuletê significa “o pêlo do ´ânus´da mãe” e todo o Brasil cantou, independente da religião. A repetitiva (e chata) Só Danço Samba de Tom, a engraçadinha (e bobinha) Lobo Bobo de Simonal, e segue o barquinho…

Tropicália – Protestos e pouco humor

Na Tropicália a coisa parece mudar um pouco. O movimento que surgiu com Caetano, Gil, Gal, Bethânia, Tom Zé e Torquato Neto sofria com a ditadura e os artistas resolveram protestar nas suas canções. Os protestos eram muito mais melódicos do que nas suas composições. Os artistas usavam a inovação estética musical (e artística num todo) como algo revolucionário e transgressor. A preocupação em protestar nas suas canções, parece ter diminuído o humor dos artistas. Mesmo nas músicas mais loucas da época, havia sempre uma mensagem escondida, quase subliminar. Das maravilhosas maluquices surgiam BatMacumba, Coração Materno, Panis et Circense, Domingo no Parque e Proibido Proibir. Humor somente nas músicas de Jorge Bem, na Banda do Zé Pretinho e Mas que Nada. Contudo existia um louco chamado Tom Zé, que em 1973, no auge da repressão da ditadura, lançou o disco Todos os Olhos do Mundo, e colocou na capa uma foto de uma gude no ânus de um amigo. A idéia não foi do Tom Zé, foi do poeta Décio Pignatari, mas os créditos acabaram ficando com o cantor ousado que enganou a ditadura.

Fim do humor?

Seria o fim das músicas bobinhas no país? Mais que nada. Outros clássicos do besteirol nacional iriam se juntar ao grupo. A Mosca na Sopa, Raul Seixas. Silvia, do Camisa de Vênus. Do Leme ao Pontal, do Tim Maia. Os bregas clássicos, como Fuscão Preto (Almir Rogério), Você é Doida Demais (Lindomar Castilho), A Feiticeira (Carlos Alexandre), Tenho (Sidney Magal), e a deprimente Eu vou tirar você desse lugar (Odair José).

Quanta música “boba” e ainda nem chegamos aos anos 80. Mas isso fica para o próximo post. Afinal encontraremos o gênesis do Axé Music, Kid Vinil, João Penca e seus Miquinhos Amestrados, Blitz, Mamonas Assassinas… Como diria o bom baiano: vixiiiii…

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Sobre o autor
Erick Cerqueira
Publicitário, designer, blogueiro e baiano.



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