Terça-feira, dia 15 de abril de 2014. Pelo whatsapp chegava a mensagem da greve da PM. Nos sites da capital baiana, a informação sobre uma assembleia dos policiais militares, liderados, novamente, por Marco Prisco. Pânico nas redes sociais. Fotos de “arrastões” no Shopping Salvador, a imagem era da greve da PM de 2012, mas tudo bem. Informações de “arrastões” na Estação da Lapa, mas ninguém confirmou a notícia. E tudo isso, antes mesmo de começar a assembleia que decidiria, ou não, pela greve.

Fim da tarde e a greve estava decretada. Pânico na Bahia. No shopping Iguatemi as pessoas recebiam ligações de parentes mandando eles saírem correndo pra casa, pois havia informações de roubos e arrastões por toda a cidade. Tiroteios, homicídios, latrocínios, furtos, arrombamentos, lojas saqueadas, tudo isso em menos de 30 minutos. Eram as informações que chegavam via ligações, sms, whatsapp, facebook, twitter, instagram, enquanto nos sites de notícias aparecia, apenas, a manchete sobre a greve ter sido decretada.

Assim como na psicologia, onde se discute se o choro leva a tristeza ou a tristeza é quem desencadeia o choro, ninguém sabia explicar o pânico levada ao caos, ou vice-versa. Pessoas, até então, honestas, se aproveitaram das portas arrombadas das lojas, para entrar e saquear sem medo da polícia. Reuniões de negócios canceladas, lojas de rua fechadas, seguranças particulares armados sendo contratados por lojistas, carros roubados sendo usados como aríetes para derrubar portas de supermercados, roubos em toda a cidade, arrastões em pontos de ônibus, lojas de shoppings sendo assaltadas, terror na Terra da Felicidade.

As rádios tornaram-se a principal fonte de informação real e apurada da situação. Politiqueiros de facebook condenavam a intransigência do governador do PT, Jaques Wagner, sem nem ao menos se inteirar sobre as reinvindicações da categoria ou o posicionamento do governo. Marco Prisco, vereador pelo PSDB da Bahia, eleito depois de liderar a greve da PM de 2012 tornava-se uma celebridade entre os militares. O deputado do PSB, Capitão Tadeu, pongava na popularidade do ex-soldado. Um major da PM, do DEM, também estava no grupo. Uma greve notadamente política transformava a Bahia num estado de horror.

A segurança dos baianos foi feita refém pelo comando de greve da PM. Um soldado ligou pra rádio Metrópole FM, pra defender a Greve, quase comemorando as mortes de pessoas inocentes, pela falta de policiamento. Tadeu e Prisco tentavam colocar “na conta” do Governador os crimes. E bem no meio da briga do PT, PSDB e PSB, coincidentemente partidos que lutam pelo governo Federal, estava a sociedade. Foram mais de 40 mortos em 2 dias. Números que deixariam o Iraque se sentindo o Canadá. Dezenas de saques, centenas de carros roubados, milhares de assaltos, vários arrastões confirmados, lojas fechadas, shoppings fechados e tudo isso às vésperas de um feriado de Semana Santa.

Na quinta o fim da greve foi decretado. O vereador Prisco marcava até um churrasquinho com Arrocha (estilo musical baiano) para, pasmem, comemorar a vitória. O vereador tucano estava tão feliz pelas conquistas “da categoria” que esqueceu as dezenas de mortos e crimes que assolaram a Bahia na greve dele.

Sexta-feira Santa e a normalidade estava voltando ao Estado

Depois do peixe com vatapá o Correio* informava: Polícia Federal prende Marco Prisco, por ordem do Ministério Público Federal, pelos acontecimentos na greve de 2012. Comemoração nas redes sociais por parte dos baianos revoltados com o grevista. Até que o Deputado Capitão Tadeu, lança-se numa bravata pelas redes e pela imprensa, assumindo o Comando de Greve e convocando os policiais a se aquartelarem. A sensação de segurança se desfez. Era um deputado ameaçando novamente a sociedade com uma nova greve, caso o Governador do estado não soltasse Marco Prisco, acusado de crimes políticos graves. Não houve assembleia, não houve deliberação dos sindicatos e associações. Apenas um Capitão, diretamente da Praia de Guarajuba, falando com a imprensa pelo telefone e redes sociais, levando o pânico novamente aos baianos em plena Sexta-Feira Santa. Mas apesar da midiática e estapafúrdia bravata do Capitão, Prisco, ainda preso, mostrou que o Comando de Greve da PM, é dele. Antes mesmo do Sábado de Aleluia, a greve tinha sido descartada pela ASPRA. Ainda não foi dessa vez que o Capitão Tadeu Fernandes estaria no comando de uma greve. Quem sabe em 2016?

Enfim, a paz vai voltar a reinar. Ao menos até outubro, quando o vereador Prisco deve sair pra Deputado Estadual no lugar do Capitão Tadeu, que deve se lançar para Federal. O Major da PM, do DEM, teve pouca visibilidade na greve, mas tem o apoio do prefeito Acm Neto, e deve se lançar a vereador, talvez. O atual governador deverá ser nomeado Ministro numa eventual reeleição de Dilma. Ah, e não precisa se preocupar com os mais de 40 mortos nesses 2 dias de greve. Eles não votam, mesmo…

Erick da Silva Cerqueira
Filho de policial, sempre a favor da luta por melhorias para a categoria, mas totalmente contra a forma política como essa greve foi encarada.