Ética e indignação
A palavra “ética” vem do grego ethos e tem seu correlato no latim morale, com o mesmo significado: conduta. Podemos concluir que etimologicamente ética e moral são palavras sinônimas. Porém, apesar de sinônimas, são completamente desconhecidas em um longínquo local chamado Brasília. Obviamente, não me refiro ao povo de Brasília, e sim, aos ilustres moradores da Praça dos Três Poderes. Talvez, agora, com o apoio da reforma ortográfica, essa palavra passe a figurar entre os verbetes do dicionário desses nobres brasilienses honorários.
Depois de tantas denúncias, escândalos, mensalões, castelos, cuecas, anões do orçamento, pasta rosa, aquilo roxo e operações glamourosas da Polícia Federal, os nossos ilustres representantes estão indo buscar know-how internacional. Para tanto, os pobres deputados, tão ligados às suas famílias, estão levando-as junto consigo para ajudar a vencer a triste solidão sentida por aqueles que acabam deixando sua pátria em nome dos interesses públicos. Pena que todo esse amor familiar seja sustentado por nós, pobres contribuintes e eleitores brasileiros.
Mas até quando irá esse mau-caratismo sem tamanho? Esse caradurismo desassombrado e impunemente executado a cada dia?
Até sempre. No Brasil, as coisas funcionam de forma contrária. É comum ver vereadores desfilando com pose de celebridades nas capitais e, principalmente, no interior do nosso país, com ar de empáfia e desdém pelas pessoas mais humildes. Justo eles, eleitos pelo povo para representar o povo, acabam por se esconder atrás de gravatas e mesas luxuosas para legislarem, quase sempre, em causa própria.
Ainda há tempo
A farra das passagens aéreas, tão divulgadas, é hoje apenas um futuro ex-assunto. Daqui a alguns meses estará morno e assunto morno não vende jornal. A imprensa, atual inimiga pública número um dos políticos, acaba fazendo o papel da Polícia Federal e investigando os nossos representantes eleitos. Mas esse não é o papel da imprensa e, por isso, acabamos deixando no esquecimento os erros dos nossos legisladores quando a matéria “esfria”.
O pior é ter que admitir a “uníssona imagem” dos políticos na mente do povo brasileiro. São todos canalhas, corruptos, ladrões, traficantes de influência, praticantes de licitações ilícitas e acabam sempre se beneficiando do dinheiro público. Entre passagens aéreas, subornos, lobbies ilegais, aumento dos próprios salários, auxílio-paletó, ausências nas plenárias sem mídia e presenças mudas no Congresso vão se passando os dias, meses, anos e junto com eles a indignação do povo, que passa a ver como “normal” a prática de tantos atos ilegais dentro do âmbito público dos três poderes.
Por isso, proponho um ato de repúdio aos nossos governantes. Vamos mandar e-mails sobre moral, ética, bons costumes e powerpoints bonitinhos aos nossos governantes a fim de sensibilizá-los. Enviaremos matérias sobre a violência das cidades grandes, o descaso da educação, o abandono da saúde pública, a imoralidade da falta de saneamento básico e os desvios de verbas federais dos programas de assistencialismo. Vamos mostrar a eles que ainda existe tempo de mudar a história, de mostrar ao Brasil que Brasília tem jeito. Vamos tirar o Congresso do CQC e do Casseta e levá-lo ao Jornal da Record e ao Band News. Chega de palhaçada e brincadeiras onde projetos deveriam salvar vidas. Não percamos o nosso poder de nos indignar ante tanta patifaria parlamentar e descaso com a situação do outro.
Mas antes de tudo isso, é necessário a inserção de uma simples palavra no dicionário dos nossos governantes: ética.
Fonte: Observatório da Imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=535FDS010
A fraca memória do povo brasileiro é algo interessante. Em setembro de 2006, uma bomba estourava nas redações por todo o país. O assessor especial da Presidência, Freud Godoy, saía do anonimato do cargo de segundo escalão para o estrelato dos escândalos políticos. Seu crime era ser o mandante da criação de um dossiê onde o candidato tucano ao governo de São Paulo, José Serra, era acusado de estar envolvido com a máfia dos sanguessugas. Lembram? Na época, a grande imprensa não se importou muito com o possível envolvimento de Serra com o esquema descoberto pela Polícia Federal. Todos se concentraram em descobrir provas sobre o envolvimento de Freud, ou Froude, na compra de informações privilegiadas junto a Polícia Federal. Afinal, eram 1,75 milhão de reais por um documento. A BBC Brasil divulgou uma previsão do cientista político João Paulo Peixoto, onde as denúncias ao assessor do presidente não afetariam na eleição de Lula sobre Alckmin e ele deveria vencer ainda no primeiro turno. Isso não aconteceu. Mas porque ressuscitar esse caso, a tanto esquecido? Quem se lembra de Freud ou de sua contribuição para a campanha adversária? Eu lembro. Lembro que na época, a imprensa, inclusive a Folha, procurava atribuir ao Presidente da República e a seus candidatos a governos estaduais, a responsabilidade pela criação desse dossiê. Eliane Cantanhêde, coincidentemente da Folha, escreveu um texto a ser lembrado agora. O título: A quem interessa? Em sua obra ela procura culpar Lula pelo caso do dossiê. Só para relembrar:
A arte mais difícil de todas é o convívio humano. Conviver ou lidar com o próximo, muito próximo, é coisa que poucos conseguem fazer sem sair arranhados ou arranhar a alguém. Mas, infelizmente, o homem é um ser sociável e precisa conviver com outros, então o que fazer?