Archive for agosto, 2009

25
ago

O Nordeste na mídia, preconceito e estereótipo

   Posted by: Erick Cerqueira    in Atualidades

Veja quanta bobagem...

Veja quanta bobagem...

Não importa se modelo associativo ou padrão pré-estabelecido. “Usado principalmente para definir e limitar pessoas ou grupo de pessoas na sociedade”, o uso do estereótipo é motivado, sobretudo, pelo preconceito e discriminação, como consta seu significado na enciclopédia digital, Wikipédia.

Tomando como base o substantivo em questão, quando o jornalista Marcelo Marthe escreve no texto em que assina (edição 2124, 08/08, revista Veja) que “o telejornalismo estilo `mundo-cão´ é o prato principal do horário do almoço nordestino” e que isso “se explica pelos altos índices de criminalidade da região”, em outros termos e bastando um pouco de discernimento, ele está criando um estigma preconceituoso acerca dos mais de 51 milhões de habitantes dos quase 1.800 municípios existentes nessa região.

Para entender melhor nosso ponto de vista, voltemos um pouco ao texto de Marthe – que contou com a colaboração das reportagens dos jornalistas Leonardo Coutinho, Luciana Cavalcante, Fernanda Guirra, José Edward, Igor Paulin e Bruno Meier. Nas informações, o jornalista se utiliza dos termos generalistas para tentar explicar as hipóteses içadas sobre a quantidade de programas “policialescos” exibidos no Nordeste, em especial, o “expoente da baixaria baiana” Se Liga Bocão – citado como um dos exemplos, dentre as “aberrações” geradas pelas “produções regionais”.

Ranking de homicídios

Seguindo a contramão das “produções nacionais das grandes redes”, Marthe diz que a apreciação do nordestino ao estilo citado, exibido dentro do horário que atinge os maiores índices de Ibope na programação das TVs locais, é tida por “horário nobre” dos sítios e que isso faz parte da “tradição que remonta à era cenozóica da TV”. Ou seja, os velhos hábitos dos truculentos matutos e flagelados do Nordeste… Eis a chancela discriminatória evidente nas entrelinhas.

O jornalista não conseguiu esconder e deixou escapar sua verdadeira intenção ao traduzir que tal relação pitoresca entre o meio difusor e o expectador nordestino não passam de uma combinação entre baixa qualidade nas produções televisivas e as poucas faculdades intelectuais de um povo.

Um interessante flagrante de contradição da escrita pode ser visto quando Marthe se refere ao programa Sem meias palavras, apresentado pelo repórter Givanildo. Em um mesmo parágrafo o autor cita que “o telejornalismo estilo `mundo-cão´ é o prato principal do horário do almoço nordestino. Isso se explica pelos altos índices de criminalidade da região”. Em seguida, diz que “as reportagens sobre um certo bêbado Jeremias e sobre o cachorro que faz sexo com uma garrafa pet transformaram Givanildo Silveira em hit no YouTube”. Será que a Google sabe que o seu produto, o Youtube, é assistido apenas por uma fatia do mercado brasileiro? Os nordestinos? Buemba, buemba como diria Simão. O esdrúxulo, caro Marthe, é sucesso em todo o país e no mundo.

Um levantamento da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) traz uma informação estarrecedora, talvez para os jornalistas – inclua-se aí o editor – da revista Veja:

“A cidade de Coronel Sapucaia (MS) tem a taxa média de homicídios mais alta do país, com 107,2 mortes para cada 100 mil habitantes. Em números absolutos, a cidade de São Paulo lidera o ranking, com 2.546 homicídios (taxa 23,7), seguida pelo Rio de Janeiro, com 2.273 (37,7).”

Um papel simples e ridículo

É incrível o que revela essa pesquisa, visto que as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Coronel Sapucaia não fazem parte do “mundo-cão” que assola o Nordeste, mas estão com os maiores índices de criminalidade do país. Para piorar a situação do jornalista de Veja, que parece não ver a realidade da pátria em que vive (se é que ele ainda acredita que SP e RJ fazem parte do Brasil), um dos programas mais popularescos da TV, citado por ele próprio na reportagem, foi “exportado” do Nordeste para as capitais sulistas. O Balanço Geral, do sr. Raimundo Varela. O que existe, segundo informações do IBGE, é um aumento substancial do poder de compra das classes menos favorecidas nos últimos anos. Com isso, criar programas que agradem as classes C, D, e E (que são a maioria nacional) é alvo mercadológico que simboliza lucro. Somente a classe C ocupa aproximadamente 44% dos consumidores brasileiros, colocando-os na mira dos especialistas de mercado.

Muitas empresas de bens e serviços já voltaram suas estratégias e campanhas de marketing para as novas classes de poder. E quem não aderiu ao segmento, logo estará criando perspectivas substanciais para atrair quem está inserido na maior parte da população brasileira consumidora. Essa informação, não presente no texto da Veja, acaba por tornar-se um empecilho para credibilidade de tanta verborragia desnecessária.

As falácias deflagradas em preconceito pela grande mídia acerca do Nordeste e dos nordestinos são recorrentes na história da imprensa e a elas somam-se as evidências de um crime prescrito. É assim na política, no futebol e em todas as outras áreas. A título de exemplo, na segunda divisão do ano passado, do campeonato de futebol brasileiro, parecia ter apenas um time disputando o título, o Corinthians paulista. Esse ano, como de praxe, quem centraliza as lentes e narrativas futebolistas é o Vasco da Gama, enviesando muita espinha de bacalhau na garganta de milhares de torcedores.

O estereótipo utilizado por Marthe e equipe limita 51 milhões de habitantes a um simples e ridículo papel de consumidor da miséria humana. A Veja, mais uma vez, parece desconhecer o público com o qual se comunica. E esquece que esse mesmo público consumidor do “mundo-cão” é responsável por 14% das aquisições da sua própria revista, mais de um milhão de exemplares. Veja só, é mais um exemplo de quem vê o Brasil com a cabeça em Marthe.

Por Erick Cerqueira e Mônica França

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24
ago

De ídolos a ridículos

   Posted by: Erick Cerqueira    in Atualidades, Humor

 O programa Ídolos, da Rede Record,  desperta o lado sádico escondido em cada um de nós. Ver os três ilustres jurados arrasando a auto-estima de milhares de medíocres aspirantes a artistas consegue arrancar de cada espectador o sorriso mais cruel que se poderia dar ante a desgraça do outro. É como uma vídeo-cassetada sem quedas. Os ácidos jurados falam com uma sinceridade assustadora, humilhando os “corajosos” candidatos que, mesmo sem nenhum talento, buscam os seus quinze segundos de fama. 

Porém nessa última semana um fato chamou-me a atenção. Um cearense conseguiu expor a mediocridade do pagode baiano para o cenário nacional. Com os grandes hits da “Música Prapular Baiana” e as suas respectivas “coreografias”, o candidato Ticiano Caetano foi o alvo do assédio moral dos jurados, dessa vez, para o meu deleite e vergonha. Nada contra o candidato, mas sim, contra a falta de qualidade das músicas executadas incessantemente nas rádios da Boa Terra. Cantando e dançando os sucessos (sic) “Toma maderada”(banda Kortesia) e “Tchuco gostoso” (banda É Xeke), a apresentação, obviamente reprovada, ganhou destaque no portal TerraTV. A “dancinha”, como foi denominada pelo portal é o grande sucesso das bandas de pagode no estado.

A situação se agrava a cada instante, mas como a indústria do entretenimento vai indo muito bem no mercado local, esses expoentes da MPB2 acabam se firmando e, o que é pior, proliferam de forma absurda. A falta de qualidade musical, em termos de letra, parece ser compensada pela qualidade técnica dos equipamentos de som. O insuportável volume alcançado pelos rádios dos carros de adultos e adolescentes pelas ruas de Salvador dá sempre destaque a essas composições de fácil assimilação, com duas ou três estrofes e 50 repetições de um refrão qualquer, que normalmente é homônimo ao nome da obra. É comum ver pelas ruas salvadorenses grupos de jovens ouvindo os hits difundidos no programa Ídolos, sendo executados por celulares e dançados exatamente igual ao candidato do SBT. Ou seja, o ridículo papel do cearense é uma prática comum na Bahia.

“Passinhos”, “tchucos” e “nhecos”
 A indústria da música baiana, apoiada por grandes ícones, como Caetano Veloso, é uma das principais clientes de publicidade do estado, perdendo apenas para os governos em todas as instâncias e as grandes lojas de varejo.

Para se ter uma idéia, neste exato momento existe um outdoor em uma das áreas nobres de Salvador com a foto de um artista rasgando a camisa e exibindo os seus músculos, no melhor estilo incrível Hulk, ao lado do texto: Nheco-Nheco, o novo sucesso da banda x. Avaliando a peça de forma técnica, notamos que a música é o que menos importa. A foto do cantor tem o intuito de despertar qualquer outra necessidade ou desejo diferente do prazer de ouvir uma boa música. A peça publicitária é muito mais centrada na auto-promoção do artista, que inclusive já posou para a revista G Magazine, do que realmente em divulgar o texto principal do outdoor. Porém, mesmo sem ouvir a obra Nheco-Nheco, podemos deduzir duas coisas: irá surgir uma nova “dancinha” igual à do aspirante a ídolo cearense e, obviamente, ouviremos uma incessante repetição do refrão, previsivelmente “nheco-nheco”.

Enfim, nada de novo. A triste constatação é: a Bahia que encantou o Brasil e o mundo com as letras e melodias de João Gilberto, Caetano, Gal, Bethania, Caimmy e tantos outras, hoje vive a triste realidade de ver sua poesia dispersada por “passinhos”, “tchucos” e “nhecos”.

O vírus da “dancinha”
Pior mesmo é ver estampado em diversos sites de vídeos pela internet essa “nova ordem” da música baiana, através da ridicularização do pobre Ticiano, em âmbito nacional, no SBT.

Como nordestino e baiano, sinto-me constrangido em ver tanta mediocridade na música do meu estado, além de ficar extremamente preocupado, já que o vírus da ruindade musical começou a romper as fronteiras do cenário local e ganhou destaque na mídia televisiva e principalmente, na internet. Agora é viral, um vídeo viral, assim como os famosos “tapa na pantera” e o “bêbado Jeremias”, que projetaram para todo o Brasil a atriz Maria Alice Vergueiro e o programa Sem Meias Notícias, respectivamente. Não bastasse a gripe suína, essa outra pandemia pode tomar conta do mundo. O vírus da “dancinha da Bahia”.

No Observatório da Imprensa: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=552TVQ004

Veja o video da “dancinha”

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16
ago

Entre o céu e o inferno: a audiência!

   Posted by: Erick Cerqueira    in Atualidades

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Em 1977, nascia em uma funerária um dos maiores impérios do mundo moderno. Era o embrião de um projeto de evangelização que com o tempo se transformaria em uma grandiosa instituição religiosa presente em mais de 170 países: a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo.A instituição baseou seu crescimento pelo país através da propagação da Teologia da Prosperidade. Segundo essa doutrina, surgida nas primeiras décadas do século 20 nos Estados Unidos, “aqueles que são verdadeiramente fiéis a Deus devem desfrutar de uma excelente situação na área financeira, na saúde etc.”.

A IURD passou a utilizar-se dos meios de comunicação para difundir a Sua Palavra (ou a de Deus, como queiram), através de jornais e da compra de pequenas emissoras de rádios AM e comunitárias pelo Brasil. Com o sucesso do empreendimento, a Igreja do pastor Edir Macedo passou a investir também na área televisiva, adquirindo a quase falida TV Record e diversas retransmissoras. Inicialmente, o projeto era utilizar uma emissora nacional para divulgar os seus programas evangelizadores e os “produtos” da igreja: Manto sagrado do Senhor, Banho do descarrego, Trono da prosperidade e até Terra do Monte Sinai eram comercializados abertamente nos horários mais diversos da emissora. Até que uma retransmissora da Record de Salvador, a TV Itapoan, chamou a atenção do bispo-empresário. Homem de visão, Macedo levou para a Record nacional o diretor da TV baiana para assumir a presidência da Rede Record. Golpe de mestre.

Formação de quadrilha e lavagem de dinheiroAlexandre Raposo, homem de confiança do bispo, assume a Rede Record e em pouco tempo as mudanças começam a dar frutos. Enfrentou “medalhões” como Adriane Galisteu e Claudete Troiano, afastou-os da Record, contra a vontade de muitos, e deu certo. Mudou o jornalismo, passou a copiar a líder de audiência, a Globo, em quase tudo e tirou de quase toda a grade da programação os programas evangélico-varejistas que dominavam a emissora. Assim, a emissora do bispo passou a ser vista como uma opção comercial e com programas de nível semelhante aos de sua grande concorrente. Contratou muitos profissionais da Globo e do SBT, criou cópia de programas da líder e finalmente tornou-se uma opção aos refugiados do plim-plim.

A grande Rede Globo só sentiu o peso da crescente concorrente muito tarde. Passou a criar programas onde tentava desmoralizar os evangélicos, como a minissérie Decadência, de 1995. Exibiu no Jornal Nacional imagens de Edir Macedo e seus pares falando abertamente sobre extorsão do dinheiro dos fiéis e esbanjando os dízimos em passeios de lanchas. Quando da prisão do oponente, passou a fazer verdadeira campanha de degradação da imagem do pastor, imagem essa que sempre foi abalada, é verdade. Polemizou os chutes do pastor Sérgio Von Helder a uma estátua de gesso de Nossa Senhora de Aparecida em pleno Jornal Nacional e muito mais.

Recentemente, a pedido do Ministério Público de São Paulo, a Justiça abriu ação criminal contra Edir Macedo e outros nove integrantes da Igreja Universal do Reino de Deus sob a acusação de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. O caso foi amplamente difundido em todos os jornais da emissora global. Aí começou o pecado da católica Rede Globo de Televisão.

“Inocência” da justiçaPela primeira vez desde 1964, ano de fundação da Globo (e, coincidentemente, ano do golpe militar no Brasil) a toda poderosa líder de audiência pode sair enfraquecida de uma batalha. O Repórter Record, apresentado pelo ex-global Celso Freitas, preparou uma excelente resposta aos ataques da concorrente. Expôs várias acusações à “toda poderosa”, escrutinou os caminhos mais obscuros traçados por ela e desafiou de forma explícita a rival. Apresentou denúncias concretas de “apropriamento indevido” de áreas públicas, ilicitudes no ato de compra da emissora por parte do sr. Roberto Marinho, documentos fraudados de formas grotescas, além de exibir trechos do polêmico (e proibido) documentário da BBC Behind Citizen Kane (Muito além do Cidadão Kane).

Nem a vida particular do promotor que abriu o inquérito contra a Record foi poupada. Afinal, coincidentemente, a juíza que receberia o caso, licenciou-se do trabalho para não recebê-lo por ter sido namorada do citado promotor.

Porém, podemos analisar os fatos por outro ângulo. Alguém, em sã consciência, tem dúvidas que a compra da Rede Record foi feita através do investimento dos dízimos dos fiéis da IURD? Se isso realmente ocorreu, não seria uma “inocência” da justiça brasileira, tratar instituições religiosas como “filantrópicas” e, assim sendo, isentá-las da cobrança de impostos? E, citando o próprio Edir Macedo, como um problema que envolve a Rede Record e a IURD, ambas em âmbito nacional, pode ser representado em um fórum estadual?

Na Terra-do-Nunca chamada BrasilAs respostas são simples. Vivemos num país de “faz-de-conta”. Fazemos de conta que a Globo não tem interesses em derrubar o avanço da Rede Record no Ibope. Fazemos de conta que a Record é uma nova TV e não uma cópia cada vez mais parecida com a Globo. Fazemos de conta que as igrejas, de todas as vertentes, não utilizam os dízimos para outros fins senão a “propagação da obra de Deus na Terra”. Acreditamos em uma possível prisão de Edir Macedo, que foi preso e solto anteriormente e usou isso para vender milhões de livros e ganhar ainda mais dinheiro para a “Opus Dei” dele. Temos plena confiança na intenção de informar de forma imparcial do jornalismo das duas grandes emissoras do nosso país. E cremos na honestidade do presidente do Senado e do Papai Noel, os dois bons velhinhos que farão sucesso nesse final de ano.

Nessa Terra-do-Nunca chamada Brasil, parece que preferimos não crescer mesmo. Somos pastoreados por pastores evangélicos, padres, pais e mães de santo, jornalistas (com ou sem diploma), ministros do Superior Tribunal e promotores vendidos à grande mídia. A verdade sofre o peso da falta de pauta para si e a “roupa suja” vem sendo lavada em público para alcançar picos de audiência, como no Balanço Geral da Record. Enquanto isso, o Esporte Espetacular (Globo) briga com o Esporte Fantástico (Record) e o Fantástico (Globo), com o Domingo Espetacular (Record). Mas não se preocupem: qualquer semelhança é mera coincidência.

Observatório da imprensa: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?msg=ok&cod=551JDB004&#c

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