Archive for março, 2010

29
mar

Uma nação de ódio clamando por vingança

   Posted by: Erick Cerqueira    in Atualidades

E se os Nardonis fossem soltos? Será que a polícia teria como garantir a segurança dos acusados? Não teria. O crime que chocou a opinião pública nacional é um grande exemplo da força da imprensa no nosso país. Poder tão grande que transformou a indignação do povo brasileiro, ante um crime tão hediondo, em um ódio mortal pelos acusados.
Durante a incrível cobertura do julgamento, em março desse ano, ninguém comentava outra coisa, senão o julgamento. O povo pedia justiça, ou seja, condenação severa para os acusados.  Porém, se eles fossem inocentados, talvez fossem linchados dentro do carro da PM.
Cenas lamentáveis de agressão contra os defensores do casal, contra o pai do acusado e, obviamente, xingamentos contra o casal assassino, viravam furo de reportagem. O julgamento era só um detalhe. Questão de determinar quantos anos mais os réus passarão na cadeia. Duvido que o juiz tivesse coragem de inocentar os réus diante de tanto raiva alimentado pela imprensa.

Antes de me lincharem, preciso dizer que também achava os réus culpados. Não os defendi e nem tive dúvidas que o assassino seria o pai e/ ou a madrasta da menina. Mas é preciso pensar na justiça não como um objeto de vingança fria e pura. De acordo com Mariel Marra, “a justiça tem normas, tem rituais, protocolos, tem fundamentos vinculados a direitos, e quando ela é acionada, ela se defronta com o princípio do contraditório, da legalidade, da fragmentariedade, da humanidade, da culpabilidade, dentre outros que devem ser respeitados. Em que de um lado estão os direitos individuais ou coletivos supostamente violados, e de outro os direitos humanos dos acusados. Nas democracias, essas normas, esses rituais, fundamentos e princípios, expressam a vontade e as escolhas da coletividade”. A vingança, por sua vez, é alimentada pelo ódio e pelo desejo de prejudicar o outro como forma de punição pelos seus crimes ou erros. A justiça depende de processos, onde todos, sem exceção, têm direito a uma ampla defesa. Porém, diante de tanta revolta da população, poucos advogados tiveram coragem de defender esse casal. Os que tiveram, temem por uma retaliação futura e irracional, onde eles poderão perder clientes por terem defendido esse casal de “monstros”.

É preciso entender que esse linchamento midiático do casal, antes mesmo do seu julgamento, serviu apenas para acirrar os sentimentos de ódio de milhões de brasileiros, espectadores de um julgamento, quase Reality-Show, onde todos queriam entrar para assistir. Parecia show da Madonna, com pessoas dormindo na fila, virando noite em frente ao fórum no intuito de participar da condenação dos inimigos públicos nº 1 do Brasil.
O casal de assassinos de criança foi condenado para felicidade geral da nação. Agora, todos voltarão as suas atenções para a final do BBB10 (argh!). Mas, pensemos: a sociedade ganhou o que com tanto ódio pelos condenados? Aprendi uma vez, que o ódio é um veneno que nós bebemos e ficamos na espera que o odiado morra. Esse veneno fica em nós, não neles. Vamos voltar a tomar conta das nossas vidas e deixar que a justiça cuide do Casal Nardoni, agora. Nesse caso, o melhor a fazer não é odiar o assassino, e sim, rezar pela vítima.

No Observatório da Imprensa
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=583FDS005

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23
mar

Caetano, das poesias às polêmicas

   Posted by: Erick Cerqueira    in Atualidades

Caricatura por Reberson Alexandre

Caetano - Uma triste caricatura de si mesmo.

Caetano Veloso é mesmo engraçado. Um homem que chamou a Bahia e o Brasil de “o cu do mundo” me solta essa pérola:  “Brasileiro adora dizer que o Brasil não presta”, falando sobre a inércia e a síndrome de país desimportante que, em sua opinião, atacam o Brasil.

Esse ex-ídolo nacional parece estar ficando meio gaga. Ou então está entrando pra escola do FHC: “esqueçam o que eu escrevi”. Um dos maiores compositores da nossa música precisa de polêmicas para poder se manter na mídia. É deprimente.

Lembro que aos 14 anos eu o encontrei dentro do bloco Olodum. Abracei o meu ídolo e fiquei emocionado com a simplicidade daquele ícone da resistência cultural brasileira. Hoje tenho quase pena dele. Um homem com o seu histórico, com um talento gigantesco no passado, vive na atualidade uma espécie de remix-trash dele mesmo.

Recentemente ele e sua irmã, a não menos genial Maria Bethânia, revelaram seu apoio a candidatura de Marina Silva, Partido Verde, para a Presidência da República. Bethânia fez quase uma poesia pra dizer que se encantava com a acreana: “Marina me arrebata. É nobre, firme, sóbria. E domina a área dela, a do meio ambiente”. Já o “maninho”, para elogiar a candidata, foi no mínimo “grosseiro e cafona” com o atual ocupante do cargo. Tanto assim que sua mãe, Dona Canô, ligou pra o presidente pra pedir desculpas. Que papelão… Depois de cem anos de vida, precisando se desculpar pela atitude de seu “filhinho” sessentão.

Caê “era um Deus e descobri que é banana de pijamas”. Essa frase de Luana Piovani, foi dita após Caetano desmenti-la no caso da música “Um sonho”, onde o compositor teria afirmado a ela, sigilosamente que Luana era a musas oculta da música. Depois, ele a desmentiu publicamente…

Em outro caso, Caetano afirmou que o negócio da música era bem sucedido no Brasil e não precisava de Leis de Incentivo à Cultura, como a Rouanet. Depois, seus produtores apresentaram projeto de captação de 2 milhões de reais para a turnê do seu disco “Zii e Zie” e ele expulsou um jornalista do seu camarim para não comentar o fato.

Pra completar, criticou o então ministro da Cultura e ex-parceiro Gilberto Gil, quando esse estava no Governo. “Um poeta não pode expurgar um governo. Governos totalitários são viciados em expurgar poetas”. E Gil, simplesmente reagiu: “peçam minha cabeça ao Presidente”. Será que essa história tem a ver com inveja ou seria simplesmente mais um “me desclassifiquem junto com Gil” do filho de Canô?

É triste ver a queda de um ídolo. Um cara que foi trilha sonora de 90% dos meus romances, ficou velho, “muito simpático, mas incompetente”. Um homem que trocou os versos brilhantes por frases polêmicas e desnecessárias, além de contraditórias com sua história. Ele virou uma triste caricatura de si mesmo. Apaixonado por Xanddy, pelo Márcio Vitor do Psi e gravando um disco em homenagem a música americana, país que criticou por boa parte da sua história (vide as músicas “Americanos”, “Guantanamo” e “Haiti”).

Romário falou de Pelé, mas hoje se aplica ao meu conterrâneo: Caetano calado, hoje, é muito mais poeta…

Erick da Slva Cerqueira

PS: Aproveito para divulgar um excelente cordel online (isso é cultura digital), de Antonio Barreto, sobre o episódio Caetano x Lula:
http://barretocordel.wordpress.com/2009/11/22/caetano-veloso-um-sujeito-alfabetizado-deselegante-e-preconceituoso/

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23
mar

Lula não é um Filho Dilma PT

   Posted by: Erick Cerqueira    in Atualidades, Notícias, Política

Se uma coisa é clara na imprensa brasileira, é que as tendências políticas norteiam as linhas editoriais. Esse fato provavelmente é recorrente em todas as partes do mundo, pensemos em âmbito brasileiro. Ao ler a Revista Época, da Editora Globo, obviamente sabia que iria encontrar críticas ao governo e a candidatura petista ao Palácio do Planalto. Contudo, diferente da tucana VEJA, a capa de Época não trazia uma referência negativa ao atual governo, e sim a imagem de um personagem vitorioso, Eike Batista, chamando a minha atenção para a reportagem central. Porém, ao ver a revista por inteiro, notei que o foco central do semanário estava nas declarações infelizes do Presidente da República e em acabar com o mesmo. E nisso, seus jornalistas foram extremamente competentes.

Na matéria “Esqueçam o que eu fiz” (parafraseando FHC) de Leandro Loyola, três páginas exploram o tema e mostram como o presidente da República, Homem do Ano pela imprensa internacional, trouxe para cima de si a fúria das Organizações de Direitos Humanos do mundo todo. Lula foi mesmo muito infeliz, esqueceu o seu histórico, sua prisão por motivos políticos e, principalmente, em tratar a morte de uma ativista cubano por greve de fome, como pretexto para liberar pessoas. Justo ele, que resolveu a questão de greve de fome de um padre no nordeste, que lutava contra a transposição do Rio São Francisco, de forma sensata, com a ajuda do hoje Governador da Bahia, Jacques Wagner. No final da matéria, Loyola ainda nos mostra um quadro com as contradições de Lula junto a personagens como Ahmadinejad, Chávez e Zelaya.

Guilherme Fiuza, na página seguinte nos presenteia com “O chicote ‘democrático’ de Lula”. Lula passa a ser o inimigo da imprensa, o homem que irá amordaçar a mídia brasileira com o PNDH-3, ou o Plano Nacional dos Direitos Humanos 3. Pausa para reflexão: o Presidente que é alvo atualmente dos direitos humanos, aprova um plano de Direitos Humansos e continua a ser rechaçado, é isso? Para concluir, Fiuza que começou a falar da frase infeliz, do apoio aos Castros em Cuba e do PNDH-3, afirma que Dilma não é Lula, Dilma é José Dirceu e que ela por ser ainda, o Celso Pitta de Lula?

E ainda tem mais…

Páginas à frente, Agnelo Queirós, ex-ministro do atual governo, aparece como um invasor de terras públicas e ainda assim se apresentando como alternativa ética para Brasília, em página dupla. Virando Agnelo, surge Alberto Bombing expondo “Os esqueletos do PT”, onde Dilma aparece tendo de defender petistas envolvidos em escândalos, alguns bem antigos. Algumas propagandas depois, uma página elogia José Alencar, que aparece como o único ponto positivo do governo atual na revista, e é elogiado pelo Dr. Paulo Rabello de Castro.

Os hábeis profissionais de Época só não conseguiram ligar Lula à Jihad Islâmica contra os infiéis europeus. Mas juro que fiquei esperando a foto do presidente com um turbante de Alá e sorrindo ao lado de um homem bomba. Porém, apesar do descanso de algumas páginas, o presidente volta ao bombardeio no artigo final, assinado por Ruth de Aquino, onde a declaração infeliz de Lula é comparada com a do goleiro Bruno, do Flamengo. Mas ainda assim, Bruno foi absolvido, pela autora, por causa um pedido de desculpas, e Lula ainda estaria devendo um pedido formal.

Política editorial na linha eleitoral

É notório que as eleições de outubro irão povoar as páginas das grandes revistas locais. É óbvio também, que as linhas editorias tenderão a pesar para o PT ou o PSDB. Mas a guerrilha está começando muito cedo e de forma torpe. Cabe a imprensa lutar pelo direito à informação e noticiar fatos relevantes como os erros graves dos nossos dirigentes. Mas buscar de forma tão acintosa acabar com a imagem de um presidente que goza do apoio de mais de 80% da população, é um jogo sujo. E o pior, atribuir a negativa personalidade de pessoas como Celso Pitta à Dilma Hussef e Ahmadinejad ao presidente Lula chega a ser um exagero.

Confesso que ao final da leitura da Revista me senti em outro país. Governado por um ser insensível e quase fundamentalista, como o presidente do Irã. Parafraseando, e contrariando, Rose Vermelho, Lula não é um filhe Dilma PT. Ele errou no depoimento, sim. Agora, reduzir oito anos de mandato e um prestígio internacional a uma declaração infeliz é algo ignominioso. É época de reflexão e não da imposições de idéias de uma época ressentida, de uma época de “denuncismos” e principalmente, de uma época que não queremos de volta, onde a liberdade de escolha deu lugar a opressão de notícias forjadas e debates editados por um certo grupo de comunicação brasileira.

por Erick da Silva Cerqueira

Publicado no Observatório da imprensa sob o título “O reducionismo como prática” (mas ainda prefiro o meu), aqui sem cortes :)
 http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=582FDS009

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