20
Sep

Brasília – Diário de Viagem

   Por: Erick Cerqueira   in Atualidades

Caros amigos, estive em Brasília a trabalho e não me contive em escrever sobre as coisas maravilhosas que vi naquele lugar. Como alguns já sabem sou um grande fã de Oscar Niemeyer e não pude me furtar a elogiar publicamente um dos meus artistas favoritos e suas obras. Espero que gostem.

Deus+Niemeyer=Galeria de Arte

Andar por Brasília é impressionar-se a cada esquina. A cidade certinha demais abriga uma surpresa agradável a cada esquina. Como marinheiro de primeira viagem, preferi conhecer a tudo andando. Obviamente não ma refiro a grande Brasília como um todo e sim a parte, digamos, turística e genial desenhada por Niemeyer. Vamos a esse breve passeio.

Biblioteca Nacional

Biblioteca Nacional

Começarei falando da primeira meia cúpula gigantesca que vi pela frente. A Biblioteca Nacional. A beleza estética do prédio é tão surpreendente quanto o seu conteúdo. Um caso típico de boa embalagem e bom produto. Dentro uma exposição magnífica contava a história da comunicação, patrocinada pela Telefonica. Perguntei em tom de brincadeira se aquela maravilha poderia um dia vir à Bahia e a recepcionista me respondeu, meio sem jeito que estava programada apenas uma viagem a São Paulo. Lembrei da realidade dos nossos museus, abandonados pelo grande público e freqüentados apenas por estudantes. Preferi não voltar a minha realidade ainda e depois de observar atentamente a maravilha da exposição voltei a minha peregrinação. Ao sair da biblioteca um enorme calçadão nos remete a uma incrível sensação de tranqüilidade, distanciamento dos problemas reais e ao calor do escaldante tempo da capital.

Catedral de Brasília

Catedral de Brasília

Pouco a frente outra escultura em forma de arquitetura. A Catedral de Brasília. Citarei o autor para resumir essa obra:  “Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito.”Oscar Niemeyer. As curvas geniais da Catedral de Brasília, com seus quatro sinos, deixam evidente a idéia de ascensão projetada pelo seu desenhista. Em seu interior um Jesus crucificado cede humildemente o papel de destaque aos anjos que sobrevoam sob a cúpula de vitrais. Deus nunca foi tão bem representado pela arte como naquele lugar. A réplica da Pietà, de Michelangelo, contrasta com a modernidade genial das outras peças do recinto. Desde a escura entrada até a claridade interna daquele monumento, nunca me emocionei tanto numa igreja. A Catedral (da Arte) de Brasília é mais inspiradora que as velhas igrejas da minha terra.

Saindo da Catedral e nos deparamos com uma fila de prédios que remete-nos a dominós deitados. A Esplanada dos Ministérios encanta pela sofisticação da simplicidade. Uma extraordinária estrada, com seus tijolinhos em forma de prédios baixos, nos leva a obra-prima do artista autor da Cidade. O Congresso Nacional.

Congresso Nacional

Congresso Nacional

Uma emocionante escultura colocada no fim de um canteiro central gigantesco parece ser o prêmio aos que conseguiram percorrer o extenso corredor de prédios. Não há como não se emocionar ante aquela construção ímpar. Confesso que sentei no chão para admirá-la em todos seus aspectos. As rampas com tapetes vermelhos, a garagem subterrânea (como tudo em Brasília), o espelho d’água os prédios ligados  pelo centro e suas semi-cúpulas. Lembrei da frase de Niemeyer que tanto me inspirou e inspira no meu trabalho como designer:

“Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu País, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o Universo – o Universo curvo de Einstein.” (Oscar Niemeyer)

E fiquei ali, extasiado ante a obra-prima do Mestre, mas achei a primeira falha na obra do deus Niemeyer. Ele coloca tanta beleza no prédio do poder Legislativo que os outros Poderes ficam renegados ao segundo plano. É como se o “velho-comunista” salientasse mais a importância do Parlamento que a do Presidente, mesmo sendo o Palácio da Alvorada uma das suas obras preferidas.

 

Entre Deus e Niemeyer

Entre Deus e Niemeyer

Niemeyer x Deus

Brasília não é só isso, claro, mas essa enorme avenida que nos leva da Biblioteca Nacional ao Palácio da Alvorada é sem dúvida a representação do maior conjunto de obras de arte a céu aberto do Brasil. O traço curvo do arquiteto ateu aparece em total conjunção com um céu absolutamente lindo projetado por Deus. É como se o Criador de Brasília quisesse desafiar o Criador do Mundo para ver quem faz o seu trabalho mais bonito que outro. Mas nesse desafio só quem vence são os olhos de quem por lá já passaram.

 

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7
Sep

Odeio o 7 de Setembro e a novela das 8

   Por: Erick Cerqueira   in Atualidades

Desfile de 7 de Setembro

Desfile de 7 de Setembro

Sempre odiei o 7 de Setembro. Era o único feriado do ano onde não íamos pra praia ou para um clube na minha infância. Minha mãe me arrastava pelo braço para a Praça da Piedade, em Salvador, onde assistíamos o glorioso Desfile da Independência. Era o único dia do ano, salvo os jogos da Seleção Brasileira de Futebol (o maios orgulho Nacional), onde ouvíamos o Hino Brasileiro à exaustão. Assistia ao famoso desfile das lavadeiras, com os tanques e trouxa  nas ruas, como brincávamos às escondidas, entediado, emburrado e com minha bandeirinha de papel na mão.
Nas TVs, o desfile em todas as capitais e em Brasília os voos rasantes da Esquadrilha da Fumaça na cabeça do presidente. Além, obviamente, dos concursos e brincadeiras para ver quem era patriota o suficiente para cantar corretamente o Hino Nacional e o Hino à Bandeira.

Mas os tempos mudaram. Hoje o presidente não veste farda, eu já passei dos trinta, a Gloriosa Revolução de 64 (como aprendi nas aulas de Educação Moral e Cívica) é reconhecida como o vergonhoso Golpe Militar, e aprendi que D.Pedro não estava sentado no cavalo às margens plácidas do Ypiranga, pois tinha hemorróidas. O tempo passa, os honrosos pracinhas que via, já devem estas aposentados e a TV, que agora é digital, faz as mesmas coisas de antes. Concurso para ver quem sabe o hino completo e correto, exibição dos honrosos desfiles em todas as capitais, a Esquadrilha da Fumaça e seus rasantes na cabeça do presidente, etc.

A diferença principal é que cresci. Aprendi que votar é um direito e ao mesmo tempo é um “serviço obrigatório”. Servir a pátria é ser humilhado, acordar de madruga, tomar grito de soldados, tomar chuva ou sol durante horas, esperar calado, ficar nu diante de vários outros jovens e ser obrigado a fazer um juramento à bandeira, e depois entender que isso tudo é um direito e uma honra patriótica, chamada Alistamento Militar. Ser cidadão é ter o direito de ver na TV, um ex-presidente ser acusado de inúmeras irregularidades administrativas além do mal uso de verbas públicas e achar normal sua permanência na presidência do Senado Federal. Ser cidadão brasileiro é vibrar com a vitória de 3 a 1 ante a Argentina e não pensar que carros fabricados no nosso “Impávido Colosso” são exportados para os hermanos, e lá são vendidos muito mais baratos do que por aqui. Ser patriota é calar-se diante da desigualdade social, corrupção, inércia do nosso povo sempre “deitado em berço esplêndido” e viver feliz na última semana da novela, pois a vilã vai tomar uma surra da pobre mocinha boazinha enganada.

Mas que importa. Viva a Independência do Brasil, proclamada no 7 de setembro de 1822, e efetivada no 2 de Julho do ano seguinte, com a verdadeira expulsão das tropas portuguesas na cidade do Salvador. Viva o Brasil, no ano da França, com Sarkosy em Brasília. Viva o povo brasileiro, que anda meio à Caminho das Índias, em busca da evolução espiritual, nas margens plácidas e imundas do Rio Ganges.

Arebaguandi, passa logo o 12 de Setembro para me ver livre do 7 e só assim proclamaremos a verdadeira Independência do Brasil da invasão Firanghi que vem de lá das Terras Hindus.
Are baba, como eu odeio o 7 de Setembro e a novela das 8.

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1
Sep

"Todo enfiado" nos 15 minutos de fama

   Por: Erick Cerqueira   in Atualidades

"todo enfiado professora e warhol"A expressão “celebridade instantânea” é algo cada vez mais presente no moderno mundo da comunicação. Pessoas passam do mais absoluto anonimato para o estrelato em questão de segundos. Esse fenômeno vem confirmar a célebre frase do cineasta e artista plástico Andy Warhol: “In the future everyone will be famous for fifteen minutes” (no futuro, todos serão famosos por quinze minutos). Porém, o autor da frase não tinha noção da real amplitude e peso que a sua sentença iria ganhar no seu post-mortem, com o avanço das tecnologias digitais e da internet.
Semana passada, o Brasil ficou chocado com as imagens de uma professora de ensino fundamental dançando de forma, digamos, “sensual demais”. A pedagoga, pós-graduada, aparece dançando junto ao cantor de uma banda de pagode que levanta o seu vestido e puxa a calcinha da educadora para cima, numa coreografia (se é que isso pode se chamar de coreografia) para fazer jus ao nome da música em questão: “Todo enfiado”.
Infelizmente para a “pró”, sua performance foi filmada por dezenas de aparelhos celulares e, posteriormente, publicada no maior site de hospedagem de vídeos do mundo, o YouTube. Com isso, a escola onde ela lecionava a demitiu. O vídeo ultrapassou os 100 mil acessos e, após a divulgação por parte da grande mídia, proliferou por toda a internet. O mais curioso é que o caso mudou o seu foco a partir da intervenção da imprensa. A mídia, em geral, tratou o caso de duas maneiras. Em primeiro lugar focou a demissão da professora, suas consequências e se era justo ou injusto o ato em si. Isso fica claro no lead da matéria publicada por Glauco Araújo no Portal G1 (SP): “Professora da Bahia é demitida após vídeo sensual cair na web, diz advogado. Instituição de ensino, em Salvador, informou que medida foi consensual.”

O segundo enfoque abordado foram os comentários a respeito da postura ética necessária dentro e fora do âmbito profissional. Dezenas de blogs e sites de grandes jornais fizeram comentário acerca desse tema, condenando ou absolvendo a professora-dançarina.

Quem não viu uma “dancinha” provocante?
Porém, outras abordagens poderiam ser feitas e acabaram passando despercebidas. Onde estão os movimentos feministas que não reagem e não ensinam às mulheres que os excessos nas horas de diversão de hoje podem ser filmados, divulgados e usados contra elas mesmas nos Tribunais da Santa Inquisição da internet?
A professora é muito mais vítima que ré nessa execração pública nacional. Sua demissão é apenas um dos problemas que irá enfrentar de agora em diante. A sua imagem estará sempre vinculada às imagens produzidas pelos celulares e câmeras digitais e difundidas pela internet. Seu erro foi não medir as consequências de um dos maiores problemas da nossa sociedade contemporânea: a proliferação do erotismo nas músicas.

Assim como a pedagoga, milhares de jovens e adultas na Bahia estão dançando livremente e fazendo as mesmas performances na Boa Terra. No próprio vídeo difundido, outras duas jovens fazem o mesmo – e coisas até mais explícitas que ela. A diferença ficou por parte da sua profissão de educadora. Porém, que atire a primeira pedra (nela) o baiano que nunca viu nenhuma outra “dancinha” provocante e até certo ponto, sexual, como aquela, sendo executada por mulheres de todos os níveis sociais. Quantas professoras estão horrorizadas no momento, por saber que fazem, ou já fizeram, alguma coreografia tão ou mais vulgar que aquela?

Erotismo imprescindível
O pagode baiano, apesar da falta de qualidade melódica e da vulgaridade de muitas das suas letras, não é o único expoente da vulgaridade no cenário musical. O funk carioca, o forró-elétrico-nordestino e muitos outros gêneros musicais espalhados pelo Brasil apresentam coreografias tão “provocantes” quanto aquelas exibidas mais de 100 mil vezes no YouTube. Professoras, delegadas, juízas, policiais, jornalistas (diplomadas ou não), cozinheiras, secretárias e todas as profissões onde as mulheres estão inseridas possuem suas representantes pagodeiras, funkeiras etc. O fato triste é a percepção de rebaixar a mulher a um mero objeto sexual, sendo usada de forma cada vez mais indigna para animar as platéias nos shows espalhados pelas periferias e zonas nobres da cidade, sem discriminação, Brasil afora.
O problema não é da banda de pagode, cujo nome não foi citado para não promovê-la ainda mais. Vai muito mais além. A educação, tema certo de tantos palanques no ano que vem, está sendo deixada de lado em detrimento do mercado fonográfico.

A fábrica de bandas de pagode, que agradam em cheio aos jovens e adultos da capital baiana, ganha o mercado com letras cada vez mais eróticas e coreografias tanto quanto. Refrões como “toma-lhe fica”, “tapa na rachada”, “rala a tcheca no chão”, “toma madeirada”, “esfrega a xana no asfalto”, “tudo até o talo”, dentre outras da atual “poesia” do pagode baiano, são executadas, dançadas e cantadas em alto e bom som em todos os cantos da cidade do Salvador. Quanto mais fácil e sexual for o teor do refrão do “pagodão”, mais será cantado pelas ruas, vias e pelo mangue baiano. O erotismo na música é algo quase imprescindível para o sucesso da mesma.

Recebida como “celebridade”
A pobre professora sofreu ao mesmo de três grandes problemas. Em primeiro lugar, sofreu por ter tido a péssima idéia de se expor em cima de um palco. Depois sofreu pela exposição e proliferação do seu vídeo na grande rede. E principalmente, perdeu o emprego para a hipocrisia de milhares de pessoas que condenaram o seu ato, mas que produzem (ou reproduzem) dancinhas ainda mais eróticas que as dela. Muitas das pessoas que a condenaram, incentivam filhos e sobrinhos, a partir dos 3 ou 4 anos, a dançarem as novidades do cenário musical do “pagodão” baiano e acham “bonitinho” ver surgir a nova geração de pagodeiros.

No jogo entre Bahia e São Caetano, disputado no dia 29/08, a professora foi recebida com o termo de “celebridade” e concedeu entrevista a uma rádio local, dizendo ter sido orientada pelo seu advogado (que estava ao seu lado no estádio) a ir assistir ao jogo do seu time, o tricolor baiano, sem nenhuma preocupação. Na entrevista teve de ouvir a seguinte pergunta: “Você veio ver o Bahia mandar o São Caetano `Todo Enfiado´ para São Paulo?” E ela respondeu, sorrindo, que sim. Enfim, não importa se por bem ou por mal, “in the future everyone will be famous for fifteen minutes”. O futuro já começou, Mr. Warhol.

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No Observatório da Imprensa
Sob o título de “Sensualidade vulgar tem 15 minutos de fama“.
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=553FDS007

Link para o vídeo da professora dançarina
http://esgoto.wordpress.com/2009/08/28/todo-enfiado/

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