Uma amiga pediu carona e ao entrar no meu carro ela notou que ele estava muito arranhado na lateral e soltou essa pérola: “com um carro desses você não pega nenhuma piriguete”.

Dia seguinte, viajando a negócios, um colega soltou outra pérola: “chegar numa festa, com esse carrão aqui e colocar um whisky na mesa, a mulherada ‘não vai se dá’ “.

Fique pensativo. Muito bem casado há 13 anos tive a sensação de estar vivendo num mundo paralelo. As coisas simplesmente se degradaram e eu não vi nada disso acontecer.

Nunca tive carro em minha vida, aliás, só aprendi a dirigir em 2013 e por causa da chegada de meu filho. Já pensou se dependesse de carro pra namorar? Teria casado virgem, aos 36 anos.

Meu povo, o que houve com a conquista? Que fizeram com a poesia? As flores? A malandragem das cantadas? Será que tudo foi trocado por carro, balada e pinga?

As coisas mudaram demais. E pra pior. O amor líquido de Bauman, cada vez mais parece gasoso ou etéreo. As coisas são feitas para durar, sim… mais apenas um momento. A cultura, hoje, é outra. Falando em cultura…

Numa pesquisa sobre os hábitos culturais dos brasileiros descobrimos algumas coisas tristes, mas interessantes: De acordo com a Fecomércio RJ/Ipsos, apenas 11,4% dos brasileiros frequentaram teatro em 2014. Apesar de baixíssimo, acredite, esse índice dobrou, desde 2009.

Dos entrevistados apenas 29,9% leram ao menos um livro em 2014. Pra piorar, entre os livros mais vendidos estão: 1º A biografia de Edir Macedo; 2º A culpa é das estrelas (John Green); 3º Ansiedade (Augusto Cury). Entre os clássicos, apenas o autor Saint-Exupéry, conseguiu ficar entre os 10 primeiros, com seu O Pequeno Príncipe. No TOP 10, nenhum era de poesia.

Como desgraça pouca, é bobagem, a pesquisa traz números ainda mais alarmantes. Dos entrevistados 91% não assistem espetáculos de dança, 73% não vão ao cinema e apenas 19,4% vão à shows musicais. Em suma, o brasileiro não tem o hábito da cultura. Por isso, talvez, as novelas sejam o principal contato da população com a arte da dramaturgia. Dos entrevistados 54% afirmaram assistir os folhetins televisivos.

Em contra ponto a essa falta de interação com as atividades culturais vemos as redes sociais bombando. Fazendo as pessoas lerem, cada vez mais, cada vez menos. Leem manchetes e compartilham, na maioria das vezes sem nem clicar no conteúdo ou averiguar a veracidade da informação. Curtem vídeos sem nem vê-los e trocam suas opiniões por meros “likes”.

A falta de senso crítico criou aberrações “aceitáveis”, ídolos medíocres e comportamento fúteis em todas as áreas da cultura. Principalmente na música, na política, na tv, no cinema…

Essa mediocridade cultural gerou uma mediocridade comportamental. Surgiu uma geração de meninas interesseiras, que correm atrás de meninos vazios mas com dinheiro. Esses garotos, correm atrás de dinheiro para pegar meninas interesseiras, para transar, filmar e compartilhar via whatsapp, em fotos ou vídeos. O carro, antes símbolo de status, hoje é condição sine qua non para o sucesso da “caçada” e possivelmente, um motel de fácil acesso. As meninas, mais experientes, já conhecem até o modelo do veículo pela chave, nas baladas, para avaliar bem com quem sair.

Meus amigos que citei no início, longe de serem culpados, são vítimas de uma geração que simplesmente “deixa a vida te levar” e vai.  É triste, mas é esse o mundo que cresceu fora dos muros da minha casa.

Enfim, o Logan arranhado e a minha abstinência alcóolica viraram antídotos contra as piriguetes. Como estou “fora da pista” há 18 anos, pra mim não há problema algum. Mas se você é jovem, sem carro e sem dinheiro. Recomendo-os a beber da poesia de Fernando Pessoa, navegar nas músicas de Vinicius de Morais, sentar a mesa com um bom Chico Buarque de Holanda, e exercer a malandragem baiana de Jorge Amado. Talvez você não consiga “pegar nenhuma piriguete”, mas entenderá o quanto é bom conhecer mulheres de verdade.